No FIQ serão expostos 30 trabalhos do Joe Bennett. Dois desses trabalhos são uma parceria entre Joe Bennett e o artista plástico Fabrizio Andriani, que estão montado uma exposição onde artes plásticas e quadrinhos se encontram com o titulo Em Com Seqüências. Os dois trabalhos são pinturas feitas sobre desenhos de Joe, um trabalho é a lápis de cor e o outro é acrílico sobre madeira.
Nesta exposição pela primeira vês serão expostos trabalhos do Joe quando ainda assinava simplesmente Bené no período dos quadrinhos de terror aqui no Brasil. Uma história inteira de 7 páginas com o título Phobus. Roteiro de Gian Danton e desenho e arte final de Bené.
Para terminar serão expostos alguns trabalhos feitos para a Marvel (Capitão America) e para a DC Comics (Batman, Gavião Negro, Birds of Prey, Teen Titans, Red Tornado, Terror Titan)
E para delírio dos fãs, originais nunca publicados de projetos próprios que ele quer lançar no mercado.
Família Titã e The Neutral World (projeto em parceria com o amigo e arte finalista Ruy José eo roteirista Gian Danton).
Histórico
Existem momentos importantes. Existem encontros que podem mudar o rumo das coisas. E existem pessoas que fazem a diferença.
Conheci Bené Nascimento no ônibus, quando os dois estávamos indo para o cursinho. Conversamos muito sobre os mais variados assuntos do vestibular, mas não tocamos no tema quadrinhos.
Tempos depois eu descobri que aquele com quem eu conversara era Bené Nascimento, o famoso desenhista brasileiro, considerado a grande revelação da editora Press... e descobri que na Universidade ele estudava na sala ao lado da minha. Um dia fui entrevistá-lo para um trabalho sobre quadrinhos. Conversamos muito e no final ele me deu um desenho do Coringa que ele rabiscara enquanto falava.
Foi o primeiro passo para uma longa amizade e uma parceria produtiva.
Um dia Bené apareceu na minha casa com uma história toda desenhada e me pediu para colocar o texto. Era uma HQ sobre um cavaleiro que entra numa floresta e enfrenta uma espécie de demônio. Floresta Negra era o nome. Usei no texto a narrativa que gente como Frank Miller e Alan Moore estavam experimentando nos EUA. A história foi enviada para a Revista Calafrio e provocou calafrios no editor, Rodolfo Zalla. Era algo muito diferente do que ele estava acostumado a publicar. Tanto que se viu compelido a mudar o texto. Na nossa versão, o cavaleiro, depois de derrotar o demônio, depositava um crucifixo sobre uma árvore como forma de proteger a floresta e ia embora, a consciência tranqüila de quem cumpriu seu dever. Zalla tascou no texto algo: "Então você se livra do crucifixo, já que agora você não pode mais usá-lo, pois agora você se transformou... no demônio da floresta negra!". É que a revista tinha a regra de que o personagem principal sempre deveria virar monstro ou demônio no final...
Foi o início da percepção de que não seria fácil trabalhar com um novo tipo de narrativa.
Pouco tempo depois, Bené teve a idéia de fazer um fanzine, Crash!, que tive que tocar quando ele começou a trabalhar.
Uma das primeiras coisas que percebi é que o homem tinha idéias em ebulição. Conta-se que Jack Kirby era assim: tinha uma grande idéia por hora. Stan Lee seria muito mais o cara que direcionava essas idéias e dava aos personagens um tom humano. Essa era a característica de nossa parceria, de modo que dizíamos que éramos o Stan Lee e o Jack Kirby brasileiros (modéstia nunca foi o nosso forte). Havia uma árvore na frente de minha casa e era sob ela que bolávamos nossas principais histórias. Bené lembrava que havia uma lanchonete em Nova York que ficou famosa por ser o local em que a dupla Kirby-Lee bolava suas histórias e afirmava: Um dia essa árvore também vai ficar famosa. Vão colocar uma placa nela: "Aqui Bené Nascimento e Gian Danton criavam suas HQs".
Enquanto isso, eu percebia que essa criatividade toda tinha seus inconvenientes. De manhã eu me encontrava com Bené e ele contava uma idéia fantástica que tinha tido. À tarde, quando nos encontrávamos de novo, ele dizia: "Esqueça tudo. Tenho uma idéia muito melhor para aquela HQ!". E, de noite: "Não, pensei melhor, acho que devemos voltar para a idéia inicial". Qualquer um ficaria irritado com essa característica, mas eu logo aprendi a lidar com ela: bastava esperar o dia seguinte, quando a idéia já tinha maturado.
E assim nós fomos mais longe do que qualquer um já tinha ido no quadrinho nacional. Olhando em retrospectiva, é surpreendente que os editores não tenham tido uma resistência ainda maior ao nosso trabalho. Uma de nossas HQs, Incubo, mostrava uma garota seduzida por um demônio sexual, que a inspirava a matar toda a família de forma bastante cruel. Bené adorava os detalhes horripilantes nos desenhos e eu contribuía com um texto que fazia o leitor entrar na pele dos personagens e sofrer com eles.
Tempos depois, quando morava em Curitiba, conheci um rapaz que comprava as revistas eróticas em que a maioria dessas histórias eram publicads e recortava apenas as nossas HQs, mandando encadernar. Em Santos e Manaus conheci pessoas que haviam feito o mesmo.
Um diferencial da dupla Gian-Bené é que sempre procurávamos fazer o melhor possível, mesmo que fosse para uma revista erótica.
E foi uma dessas histórias publicadas em revistas eróticas, AFamília Titã, uma homenagem à Família Marvel, que abriu as portas do mercado norte-americano para o Bené. O Hélcio, da Art Comics passou pelo estúdio do Franco de Rosa, viu a HQ e pensou consigo: "Esse cara sabe desenhar super-heróis". Bené foi contratado, mudou seu nome para Joe Bennett, começou a publicar em pequenas editoras e logo chamou atenção das majorsMarvel e DC. O resto, como se diz, é história.
Texto: Gian Danton
(Pseudônimo de Ivan Carlo Andrade de Oliveira) é jornalista, professor, roteirista e escritor. Mestre em comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo.
Sobre Joe Bennett:
Nascido em Belém do Pará em 1968, Benedito José Nascimento - que os leitores dos Estados Unidos conhecem como Joe Bennett - é um caso raro de alguém apaixonado pelos quadrinhos que conseguiu transformar sua paixão em profissão.
Incentivado pelo pai, também fã de quadrinhos, Bené (como é chamado pelos amigos) é um autodidata, aprendeu tudo “na raça” como costuma dizer.
Influenciado pelos quadrinhos da Marvel e mestres como Alex Raymond (Flash Gordon) e Harold Foster (Príncipe Valente), Bené Nascimento estreou profissionalmente em 1985 pelas mãos do jornalista, desenhista e editor Franco de Rosa que lhe deu a primeira chance.
Nesse período Bené trabalhou desenhando Terror e Erotismo para várias editoras brasileiras, até que em 1992 apareceu a chance de trabalhar para a Marvel americana.
Ravage 2099 era um personagem pequeno mas foi a porta de entrada para o mercado internacional. De lá para cá ele não parou mais, pelas suas mãos já passaram Homem-Aranha, Vingadores, Conan, Namor, Elektra, Hulk e muitos outros, mas para Bené o ponto alto dessa fase foi o Supremo onde teve a chance de trabalhar com um ídolo: nada mais nada menos que o grande Alan Moore.
Após seu elogiado trabalho com o personagem Capitão América (Marvel), o artista caiu na mira da DC Comics e se tornou contratado exclusivo da editora do Super-Homem, trabalhando com títulos como Birds of Prey, Hawkman (Gavião Negro) e agora o consagrado 52, título importantíssimo para a cronologia da DC.
Apesar de todo esse sucesso, falta realizar um sonho de infância: desenhar o Batman, seu herói preferido.
Alguém duvida que ele consiga?
Texto: Jefferson Nunes
Roteirista e dono da única loja especializada em quadrinhos de Belém. A “Caverna do Gibi”.
Batman, sonho ou mito?
Fui para Belém do Pará no final do ano de 2002, a trabalho, logo depois do Círio de Nazaré.
Em outubro de 2003 um colega de trabalho, Tadeu, colecionador fanático de quadrinhos, me falou de um desenhista paraense chamado Joe Bennett, que ele porém, chamava amigavelmente de Bené. – “ O cara trabalha pra Marvel! Já desenhou todos os principais títulos, Homem Aranha e ultimamente o Hulk! ”
Fiquei impressionado. Eu trabalhava na época no setor de marketing de uma importante empresa paraense, pedi para o Tadeu entrar em contato com o Bené e marcar uma reunião.
No dia marcado, vejo se aproximar da minha sala, um cara bem parecido com o Hulk!
Era o Bené.
Rolou logo uma empatia muito grande e na mesma noite fomos tomar cerveja com um outro amigo que havíamos conhecido naquele dia.
Conversamos sobre muitos assuntos e logo me dei conta que o personagem preferido do Bené era o Batman.
Os motivos? – “É um personagem noturno e eu gosto desenhar luz e sombra!”
–“Porque ele não tem super poderes e consegue enfrentar todas as adversidades. E tem uma frase no Cavaleiro das Trevas que norteia minha vida: O mundo só faz sentido quando você o força a fazê-lo!”
O Bené estava na Marvel quando o conheci, estava desenhando The Crew, um título menor da editora. Pouco tempo depois ele começou o trabalho que iria mudar sua carreira, o Capitão América.
Ainda me lembro quando ele começou o trabalho, ele caprichou mesmo, queria mostrar seu talento e não deu outra, a DC Comics mandou uma proposta de contrato exclusivo. A chance de desenhar o Batman ficou muito próxima.
Na DC, até agora, ele já desenhou o Gavião Negro, Birds of Prey, 52, e ultimamente Check Mate. Em Birds of Prey e no 52 ele desenhou o Batman. Mas ainda falta desenhar a revista exclusiva do homem-morcego. Lembro bem quando ele desenhou o Batman pela primeira vez (oficialmente), foi na revista Birds of Prey. Ele guardou o original, coisa rara dele fazer!
Antes dele chegar em Curitiba, fiz uma rápida entrevista telefônica para saber o que é para ele o Batman agora, que está mais ao alcance.
A resposta foi: -“Já foi um sonho, agora é mais um mito. Tenho receio de fazê-lo, porque pode não ficar como eu gostaria e como eu imaginei por tanto tempo.”
Nesta sala temos só alguns poucos desenhos do Batman, é uma sala pequena, representa um sonho ou um mito, o começo de uma nova fase ou simplesmente um desejo que pode não se realizar. Eu prefiro pensar que é a parte de uma história que ainda está por vir e que nessa história o Bené seja iluminado pelo Bat-sinal.
Texto: Fabrizio Andriani
Artista Plástico
Professor de artes e criador da agência de ilustração ZnorT!
Bené e Gian por Franco de Rosa
Três na Gangorra
Certo dia, acordei com umas batidas na porta de um minúsculo apartamento, onde eu morava, na Campos Elíseos. De imediato lembrei-me do pica-pau, do desenho animado. Saltei na cama e descabelado abri a porta. Dei de cara com um magricela de óculos e boné todo feliz e saltitante que em estendeu a mão se apresentando: “Oi, eu sou o Gian Danton!”
Não deu pra convidá-lo pra entrar. A quitinete era tão minúscula, que, para ele entrar, eu tinha que sair. Fomos pra padaria tomar um café e por o papo em dia.
O Gian nem precisava ter se apresentado. Pois ao olhar pra ele identifiquei-o de imediato. Ele era exatamente como o Bené o desenhara inúmeras vezes nos quadrinhos.
Não me lembro se naquela época já havia encontrado pessoalmente o Bené. Acho que não. Foi entre 1989 e 1990. Teria que consultar alguns registros meus.
Também me marcou a informação do Gian de que ele e Bené ficavam sentados embaixo de uma árvore imensa. Creio que era uma mangueira. Em Ananindeua, próximo a Belém, onde a dupla morava.
Antes de saber que existia o Gian, eu havia recebido as primeiras páginas de quadrinhos de José Benedito Nascimento. Que logo passou a assinar Bené Nascimento. E alguns anos depois, ao penetrar na indústria americana de comics, passou a chamar-se Joe Bennett.
Foi em 1984 que recebi as poucas páginas de uma história completa de Bené. Páginas absolutamente garatujadas. Extremamente cheias de hachuras. E repletas de figuras canhestras. Mas para quem lê desenho como uma partitura musical, como eu, que recebi esse privilégio divino. Ali pude constatar de imediato que estava um grande artista. E que sabia narrar uma história em quadrinhos. E já demonstrava um estilo próprio.
Foi só dar rédeas pro Bené que ele saiu desembestado montado em seu cavalo de lápis e nanquim. Montado num cavalo que ele mesmo desenhara. Que às vezes parecia um camelo, e outras um lagarto de Star Wars.
Durante um par de anos pude trocar correspondências e telefonemas com ele. Bené só precisava de espaço para publicar. E algumas dicas externas quanto a seus desenhos. Digo externas porque quem realiza o trabalho não consegue pedir por si só os excessos e as faltas.
Então um belo dia encontrei o Bené pessoalmente. Ele veio para a selva de pedra. Trocou o ar puro da Amazônia pela poluição da Paulicéia. Não agüentou nem dois meses. Mas foram dias divertidos pra mim. E sofridos pra ele.
Eu tinha um estúdio no centrão. Na praça Julio Mesquita. Bem pertinho do casarão famoso da esquina da Barão de Limeira, onde Paulo e Chico Caruso passaram a infância. (Só descobri isso muito depois). Junto do Bené ví uma das piores imagens que se pode ter de um desenhista. Nós dois havíamos acabado de entrar em um boteco pra tomar um café e comer um sanduba quando, do outro lado do bar, nos olhou e imediatamente desapareceu, um cidadão cadavérico e maltrapilho. Eu o reconhecera. E ele também a mim. Era um colega de um jornal. Eu trabalhei por mais de um ano. Era um desenhista excepcional. Era animador, da segunda geração da Linx Filmes. O estúdio que realizou os primeiros desenhos animados para comerciais de TV no inicio dos anos 60, sob a direção do genial Ruy Perótti. (Procurem por ele no You Tube). Não sei se eu fiquei mais chocado com a cena, ou o Bené comigo ao presenciar tal encontro fatal.
Não vou revelar o nome do artista. Mas aquele momento marcou a minha vida e com certeza a do Bené também. Tanto que nem eu nem ele ficamos bebericando cachaça na beirada de balcão algum.
Mas voltando ao Gian Danton.
Ele surgiu nas minhas revistas através das histórias do Bené. Depois passou a escrever histórias que outros desenharam, e foi para Curitiba. E volta e meia eu o vejo em um estágio mais elevado. Virou professor, radialista, escritor, editor, e agora é humorista, escrevendo para a cinqüentenária MAD. Algo muito surpreendente para mim, que sempre o vi como nosso Neal Gaiman. Seus textos poéticos sempre me levaram a este parecer. E também é um prazer imenso ter a colaboração dele em revistas tão inusitadas quanto “Universo da Índia” e “200 Respostas sobre o Universo Crepúsculo”. Coisas que venho produzindo atualmente.
Faz anos que prometo ir a Ananindeua visitar o Bené. Agora tenho que esticar a viagem até Macapá…pelo menos na promessa.
texto: Franco de Rosa
Aconteceu:
Exposição - Gibiteca comemora 25 anos com extensa programação
A Gibiteca de Curitiba, primeira biblioteca brasileira especializada em história em quadrinhos e importante centro nacional formador de profissionais nessa área, está completando 25 anos de existência.
Para comemorar o aniversário desse espaço democrático, que reúne ilustradores, designers, artistas plásticos, pesquisadores, professores, estudantes e simples amantes dos quadrinhos, a Fundação Cultural de Curitiba preparou uma festa aberta ao público, durante o mês de outubro no Centro Cultural Solar do Barão.
Unidade da Prefeitura Municipal, a Gibiteca foi inaugurada em 15 de outubro de 1982, a partir de projeto idealizado pelos arquitetos Key Imaguire Júnior e Abrão Assad.
Seu primeiro endereço foi uma das salas da Galeria Schaffer.
Depois, em 1988, transferiu-se para o Centro Cultural Solar do Barão, onde permanece até hoje.
Os 25 anos dedicados à divulgação e valorização da História em Quadrinhos consolidam a Gibiteca como referência nacional na formação de leitores e profissionais da área.
O espaço não se limita a ser um centro de leitura de gibis, ainda que disponha de mais de 25 mil títulos de todos os gêneros, e abrange outras iniciativas, entre elas cursos, oficinas de criação, exposições, palestras, lançamentos e encontros de RPG (Role Playing Game), envolvendo o que há de melhor na produção brasileira e internacional.
Joe Bennett
Abertura: 9 de outubro de 2007 (terça-feira), às 19h. Permanece aberta até 2 de dezembro de 2007
Curadoria: Fabrizio Andriani
Local: Centro Cultural Solar do Barão (Museu da Fotografia, salas 1, 2, 3 e 8) – Rua Carlos Cavalcanti, 533
Trabalhos do cartunista Benedito José Nascimento (Joe Bennett), nascido em Belém do Pará (1968). Desenhista da DC Comics, editora do Super-Homem e da ZnorT! ilustradores.